ACP de Pretória festeja as “Fogaceiras” de tradição feirense

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A tradicional festa das “Fogaceiras”, celebrada com grande pompa a 20 de Janeiro de cada ano em Santa Maria da Feira, data respeitada neste concelho como feriado municipal, e implantada na ACP de Pretória em 1986 pelo grupo de feirenses, Eduardo Pinho, Joaquim Candal e Eduardo Reis, passando a partir daí a fazer parte do calendário anual de eventos da colectividade, voltou ali a ser festejada com relevo e dignidade, no penúltimo domingo, 28 do mês transacto.

 A celebração abriu com um concorrido almoço tipo “self-service”, contando-se entre os presentes o novo embaixador de Portugal, na África do Sul, dr. Manuel de Carvalho e sua esposa Joana, o conselheiro da embaixada, Eduardo Rafael, a conselheira da comunidade eleita por Pretória, Elena Rodrigues, o grande oficial da ordem de mérito e presidente honorário da ACPP, Manuel José, os comendadores Mário Ferreira e Silvério Silva, e como presidentes de instituições lusas, Manuela Calado, da Liga da Mulher Portugue-sa, em Pretória, e Joaquim Melo do Luso-África, de Joanesburgo.

 As boas vindas a quantos naquela tarde ali conviviam, de modo especial ao novo embaixador de Portugal e sua esposa, que pela primeira vez visitavam a colectividade, estiveram a cargo do presidente da ACPP, Mário Jorge, com o seu reconhecimento à sua Direcção e outras pessoas que consigo colaboraram na organização do evento, Carla Ferreira na decoração do salão, a sua família, a Peter Mathews, Américo Pimentel e Tony Oliveira, a Dehan e Bernice, a Manuel de Abreu este na condução das actividades ali nessa tarde, ao artista Robão Cancela que ali viria a actuar, bem como à Fame Produtions e discoteca “El Bimbo”, não esquecendo os presidentes de outras colectividades e órgãos de comunicação social que ali faziam a cobertura do evento.

 Ao chamar ao palco o embaixador e a embaixatriz, para por intermédio de sua esposa e do vice-presidente desta casa, José rodrigues receberem as lembranças preparadas para esta ocasião, o embaixador Manuel de Carvalho, sensibilizado com essa distinção, aproveitou a oportunidade para ali dirigir algumas palavras traduzidas em reconhecimento à forma como ali foram recebidos e tratados, e os fizeram sentir estar em sua casa, confessando-se verdadeiramente impressionado com o número de pessoas que enchiam o salão, assim como pelas mesmas todo o amor demonstrado a Portugal, que ali lhe era dado verificar, acrescentando a esse respeito:

 “Os milhões de portugueses espalhados por todo o mundo, sempre se souberam impor e dar ao respeito nos países de acolhimento, isto sem nunca esquecerem o país de origem e o consequente amor a Portugal que trazem no coração,  sendo portanto sempre bom caminhar longe, longe, longe e voltar a casa, precisamente o que tanto eu como minha mulher aqui nos fizemos sentir”.

 Concluiu o seu breve improviso com esta afirmação:

 “Por nos trazerem a descobrir uma tradição portuguesa deste valor, que apesar de tanto eu como minha mulher sermos portugueses, ambos de Lisboa, desconhecíamos esta das “fogaceiras”, que a juntar à maneira de ser português que aqui encontrámos, nos aquece o coração”, com um bem hajam ao acolhimento de que ambos ali foram alvo.

 Enquanto noutros aposentos se preparavam as crianças e jovens para o desfile das fogaceiras, simbolizando todas as freguesias do concelho, conforme indicação na faixa ostentada em cada uma delas, Santa Maria da Feira, Arrifana, Paços de Brandão, Santa Maria de Lamas, Lourosa, Fiães, Souto, Rio Meão, Gião, Vale, Espargo, Mosteiró, Fornos, Guisande, Caldas de S. Jorge, S. João de Ver, Vila Maior, Sanfins, Romariz, Milheirós de Poiares, Mozelos, Travanca, Sanguedo, Nogueira da Regedora, Argoncilhe, Louredo, Lobão, Sampaio de Oleiros, Canedo, Escapães e Pigeiros, cortejo que levou à sua frente a bandeira do Mártir S. Sebastião, e a miniatura do castelo da Feira, era descrito em palco por Manuel de Abreu, a cargo de quem como mestre-de-cerimónias esteve a condução das actividades, a lenda das fogaceiras, nestes termos:

 A festa das fogaceiras começou a realizar-se em Vila da Feira por volta de 1500 – rei-nado de Don Manuel – como cumprimento de uma promessa feita a S. Sebastião pelos Condes do Castelo e da Feira, devido às pestes que por volta do século XVI assolaram a Europa, causando milhares de mortos.

 Foi então que os Condes do Castelo, movidos pela fé, ergueram as mãos a Deus e recorreram fervorosamente ao voto de louvor do Mártir S. Se-bastião.

 A promessa consistia na oferta das fogaças (pão doce) que seriam transportadas por crianças vestidas de branco e em representação de todo o concelho.

 Finda a procissão, as fogaças eram, umas oferecidas aos pobres e outras leiloadas, e o produto da sua venda entregue ao clero.

 Por volta do ano de 1749 os festejos conheceram uma interrupção devido a problemas de ordem económica. Foi então que outro surto de peste voltou novamente a assolar a região de Santa Maria da Feira, e por alvará municipal de 30 de Julho de 1753, o então Infante Don Pedro, irmão de Don João V, determinou que o município assumisse a realização dos festejos, para os quais foi atribuído um subsídio de trinta mil réis, e assim prosseguiram as celebrações até 1910.

 Chegados à primeira República, a Câmara afastou-se, e a festa passa a ter subscrição pública, com a ajuda de um subsídio da Santa Casa da Misericórdia de Vila da Feira.

  A partir do dia 15 de Julho de 1939, a Câmara Municipal da Feira decidiu assumir a responsabilidade das celebrações que se realizam no dia 20 de Janeiro de cada ano, data da morte do Mártir S. Sebastião, que foi decretado feriado municipal no ano de 1950, e presentemente se mantém.

 Interessante também nesta festa das fogaceiras, o leilão de fogaças feito pelo ex-presidente da Direcção desta casa, Américo Pimentel, a maior parte delas ultrapassando os mil randes, com as mais caras, a do Souto a chegar aos cinco mil, a de Canedo aos seis mil, a de Santa Maria de Lamas, arrematada por Joaquim Melo do Luso-África por sete mil, e como mais rentosa a de S. João de Ver, transportada pelo jovem Raúl Ferreira, adquirida pelo comendador Mário Ferreira por vinte mil randes.   

 Antes de deixarem a ACPP, foram mostradas ao embaixador e esposa as dependências que constituem o importante património da colectividade, pela sua grandeza – considerada casa-mãe das agremiações lusas de Pretória -, a deixarem admirados os ilustres visitantes, que certamente não imaginariam tal imponência, prova evidente do testemunho que ao longo dos anos a comunidade lusa aqui radicada tem dado do seu querer em preservar as suas tradições e prestigiar as suas qualidades, assim como si-multaneamente enaltecer o nome de Portugal em terras africanas.