A igualdade dos géneros

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A igualdade dos géneros

O mundo estará bem quando as mulheres estiverem melhor. Isto é, quando a igualdade do género não seja um objectivo pelo qual tenha que se lutar, mas quando essa mesma igualdade for um dado plenamente aceite por toda a humanidade. Uma igualdade que não seja por favor ou legislada pela matemática das quotas, mas que passe pela escala global do mérito de qualquer ser humano.

  Nisso, a África do Sul sempre esteve muito atrasada. As acções cívicas e políticas desenvolvidas ao longo do século XX pelas mulheres sul-africanas foram muito importantes na democratização do País. Há, efectivamente, que prestar-lhes homenagem pela sua coragem na defesa dos direitos pela plena cidadania dos seus concidadãos e concidadãs e é por isso que a África do Sul tem há vinte e dois anos um feriado em Agosto, feriado que nos anos mais recentes se transformou num mês inteiro de celebrações centradas em programas dedicados à dignificação das mulheres.

  O Dia Nacional da Mulher Sul-Africana, que passou a 9 de Agosto, é uma data que se encontra associada ao início da luta pela livre circulação de pessoas na então nação do apartheid e que foi ins-tituicionalizada como feriado em 1995 por decreto do Governo de Unidade Nacional presidido por Nelson Mandela, saído das primeiras eleições demo-cráticas e universais realizadas em Abril do ano anterior.

  Foi a 9 de Agosto de 1956, que vinte mil mulheres de todas as regiões da África do Sul, lideradas por Albertina Sisulu, Lilian Ngoyi e Helen Joseph, se juntaram frente à sede do Governo em Pretória, na maior manifestação feminina de todos os tempos, para protestarem contra a obrigatoriedade, por parte das mulheres negras, do uso do documento de circulação, conhecido por “pass”, o qual as limitava na sua movimentação entre as áreas rurais, onde habitavam, e os centros urbanos do País.

  Cantando em zulu, as corajosas manifestantes lançaram como palavra de ordem contra o Chefe do Governo “you have struck a rock – you have tampered with the women”, facto que levou o então primeiro-ministro J.G. Strijdom a abandonar o Union Buildings, como medida de segurança.

  Foi também nesse dia, no termo da manifestação, que as mesmas vinte mil mulheres entoaram em Pretória o “Nkosi Sikeleli Africa”, Deus abençõe África, refrão que hoje faz parte do Hino Nacional sul-africano.

  Depois as cadeias encheram-se de contestatárias, muitas delas maltratadas pelas autoridades policiais. Mas trinta anos depois, em 1986, durante a Presidência de PW Botha, a severa lei do “pass” era abolida pelo Governo tendo ficado instituída a liberdade de circulação das pessoas de todas as raças na África do Sul.

  Pelo seu sacrifício e pelo seu empenho na defesa dos direitos humanos, a mulher sul-africana ganhou estatuto e chegou ao poder, projectando-se também, autonomamente, nos vários sectores profissionais e na área empresarial, chegando a liderar grupos de empresas e a presidir a instituições bancárias de dimensão nacional.

  Este Mês de Agosto da Mulher na África do Sul fica também marcado por um acontecimento de grande prestígio para o País a nível internacional. Maria da Conceição Ramos, CEO do Barclays Africa, foi convidada e aceitou ser membro do Grupo dos Trinta (G30), uma instituição constituída por figuras de re-nome internacional dos sectores público e privado e dos círculos académicos. São membros deste gru-po personalidades bem conhecidas como o antigo presidente do Conselho de Governadores do Banco de Reserva Federal dos Estados Unidos, Ben Bernanke, o governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, o membro da Casa dos Lordes e antigo governador do Banco de Inglaterra, Mervyn King, e o presidente do Banco de Reserva Federal de Nova Iorque, William C. Dudley.

  O G30, fundado em 1978, visa debater de forma aprofundada os problemas da economia e das fi-nanças a nível mundial e explorar as repercussões internacionais das decisões tomadas nos sectores público e privado. Só se é membro do G30 por convite. Com Maria Ramos, passa também a pertencer este ano ao G30 o governador do Banco do México, Agustin Carstens.

  O presidente do Board of Trustees do G30, Jacob A. Frenkel, disse que o ingresso de Maria Ramos passará  a acrescentar uma diversidade de perspectiva às deliberações do grupo, uma vez que ela é uma voz forte e influente na África do Sul.

  Lider da Associação de Bancos da África do Sul, Maria da Conceição Ramos, natural de Lisboa, desempenhou anteriormente as funções de directora-geral do Tesouro da África do Sul e de presidente da empresa estatal Transnet, que tutelava a gestão dos portos, aeroportos e linhas de caminhos de ferro da África do Sul. Fez parte da equipa que elaborou o primeiro Orçamento de Estado da África do Sul democrática, em 1994, e também os Or-çamentos seguintes. Antes, tinha sido empregada bancária em Joanesburgo e orgulha-se de se ter licenciado como estudante trabalhadora.

  Hoje, à mulher, é-lhe reconhecida capacidade pa-ra participar em decisões na área governativa, no poder judicial ou na esfera parlamentar, para além de se registar uma crescente participação feminina no preenchimento de cargos de chefia nos sectores público e privado.

  Com o advento da democracia que ajudaram a conquistar, as mulheres passaram a ter um papel mais activo na sociedade sul-africana.

  Elas estiveram na Codesa, onde foram bastante activas nos trabalhos de preparação da primeira Constituição democrática deste País, elas tiveram assento na Assembleia Constituinte, elas estão lar-gamente representadas no Governo do País, como titulares de pastas importantes do Executivo, elas estão no Parlamento, elas governam algumas das Províncias do País como primeiras-ministras dos Governos provinciais, elas lideram Câmaras Muni-cipais, elas têm assento nos Tribunais e elas lide-ram partidos políticos. Elas são agentes da Polícia sul-africana e elas também integram todos os ra-mos das Forças Armadas.

  Passando da cena nacional sul-africana para o contexto mundial, refira-se, a propósito da data, a exaltação do ser mulher como tema de uma Carta do falecido Papa João Paulo II, feito Santo pelo actual Papa Francisco.

  “A história da Igreja nestes dois milénios, apesar de tantos condicionalismos, conheceu realmente o “génio da mulher”, tendo visto surgir, no seu seio, mulheres de primeira grandeza”.

 Era, efectivamente, num tom de admiração, de gratidão e de apelo que o Papa se dirigia a cada uma das mulheres do mundo inteiro, sempre que se realizava uma Conferência Mundial sobre a Mulher. Afirmava o Santo Padre que no futuro da Igreja, no decorrer deste terceiro milénio, não dei-xariam certamente de se registar novas e esplêndidas manifestações do “génio feminino”.

  Com a percepção que é própria da feminilidade, a mulher pode enriquecer a compreensão do mundo e contribuir para a verdade plena das relações hu-manas. É o que delas se espera nesta hora e neste mundo, herdeiro de uma história com imensos con-dicionalismos que, em todos os tempos e latitudes, tornaram difícil o caminho da mulher, antes ignorada na sua dignidade, deturpada nas suas prerrogativas, não raro marginalizada e, até mesmo, reduzida, à escravidão laboral e sexual.

  Na comemoração deste Mês da Mulher na nova África do Sul, reflictamos na atitude de Cristo em relação à mulher. Ele, superando as normas em vigor na cultura do seu tempo, teve para com as mulheres uma atitude de abertura, de respeito, de acolhimento e de ternura.

  Estava assim quebrado o problema da emancipação, um problema de natureza cultural que impedia a paridade da mulher com o homem e a sua participação em todas as actividades num plano de igualdade.

  O homem e a mulher completam-se um ao outro e é na diversidade do género, com direitos e deve-res iguais e com respeito por igual dignidade, que está a riqueza de participação na vida por um mun-do melhor.

  E um mundo melhor passa também por uma comunidade melhor. Sem violência doméstica.

R. VARELA AFONSO