A família Contente é a base de sucesso da Propact Plant Hire

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O Século de Joanesburgo foi saber como funciona uma das maiores empresas luso-sul-africanas da província do Gauteng. Trata-se da Propact Plant Hire, uma empresa criada em 1986 por José Manuel Contente, que se transformou numa empresa de aluguer de maquinaria para a construção civil. É uma empresa familiar onde marido e mulher trabalham lado a lado com os três filhos e um genro. A base, segundo nos confidenciaram, é a confiança e o conhecimento. Confiam uns nos outros e sabem o que é que todos fazem. Assim, os pilares estão assentes para o crescimento. Uma entidade privada que já emprega permanentemente 40 pessoas directamente e centenas indirectamente.

  Fomos aos escritórios e armazéns da Propact, no sul de Joanesburgo, para sabermos mais como tudo funciona e a receita para o sucesso.

 

JOSÉ CONTENTE

 

  Michael Gillbee – Como é tudo começou? Nasceu onde? Qual foi o seu percurso?

  José Contente – Nasci no Baixo Alentejo, mais propriamente em S. Martinho das Amoreiras, concelho de Odemira, distrito de Beja.

  Com cinco anos de idade, rumamos para África. A família toda. O meu pai com quatro filhos na altura, rumou para África, e foi lá nascer depois mais um, somos cinco rapazes.

  O ponto de fixação em Moçambique foi o Colonato do Limpopo. Por conseguinte, um colonato que tinha sido construído para agricultores pelo engenheiro Trigo de Morais e foi lá que começou a nossa vida. Foi lá que tive a minha Instrução Primária, depois fui para Lourenço Marques para o Ensino Secundário.

  Estive em Lourenço Marques até ao meu ingresso no serviço militar, de Abril de 1972 até 1974. Cumpri o serviço militar em Cabo Delgado, na cidade de Porto Amélia onde nasceu o meu primeiro filho. Mas, não havia educação para as crianças, não havia maneira de sobrevivência, não havia vida, rumei para a África do Sul, já com a vantagem da minha esposa ter cá estudado e ter cá a residência dela. Assim, para mim foi mais fácil adquirir residência na África do Sul.

 Não era fácil na altura, tinham chegado pessoas de Angola e Moçambique que tinham ido para os campos de refugiados. Eu não fui abrangido por essa fase, porque fiquei mais dois anos em Moçambique e quando vim já estava tudo normalizado.

  MG – Veio para a África do Sul em 1976?

  JC – Sim, vim para cá em fins de 76. Estive aqui um período de doze meses durante o qual submeti o pedido de residência, na altura complicado para todos. Os meus irmãos que tinham ido para Portugal, apertavam comigo e diziam para eu ir também. Fomos. Fui tentar. Estive em Portugal com a família dez meses e entretanto saiu a minha residência e davam-me um período de seis meses para voltar para a África do Sul.

  MG – Mas quando voltou para Portugal, foi para o Alentejo?

  JC – Não. Voltei, mas para o Algarve. Os meus irmãos já estavam estabelecidos lá.

  MG – E foi trabalhar em que área?

  JC – Trabalhar sempre, desde o primeiro dia. Tinham negócio. O meu irmão mais velho estava ligado ao ramo automóvel e mecânica, pintura, bate-chapas e pneus.

  Então, passado dez meses, a residência saíu e tive que decidir. A minha esposa nunca se tinha adaptado 100% ao modo de vida de Portugal, vinda de Moçambique, naquela altura não havia trabalho para senhoras em Portugal e ela que tinha sempre trabalhado nas Finanças não se sentiu com vontade de ficar apenas como dona de casa. E, decidimos regressar à África do Sul.

  Vim eu primeiro com o meu filho, nessa altura só tínhamos o Paulo Jorge. Passados 15 dias de aqui estar, arranjei logo emprego na LTA, a maior firma de construção na altura. Quando tive a garantia de trabalho, mandei logo vir a Adelaide.

  MG – Como é que era Portugal naquela altura dos anos 70?

  JC – Era muito triste, pobre. Logo à chegada ao aeroporto de Lisboa, os ditos “retornados” ainda dormiam pelos salões em cima daquelas cadeiras, ainda não tinham sido colocados. Havia a dificuldade de serem inseridos nas várias aldeias e terras. Tanto é que quando o meu pai eventualmente regressou a Portugal, a minha mãe tinha sido colocada no Algarve e o meu pai foi mandado para Trás-os-Montes. Não fazia sentido. Mas era o IARN na altura, que assim fazia.

  A família estava estabelecida e sempre houve trabalho para nós, mas comparativamente com África e o que fomos encontrar lá era uma vida deprimida. Portugal ainda não tinha as autoestradas que tem hoje, não tinha nada. Como digo, nem as senhoras tinham emprego.

  MG – Isso influenciou também o regresso?

  JC – O regresso à África do Sul. Vim, passados quatro, cinco dias encontrei trabalho, a família veio e tive um período de 10 anos em que nunca mais fui a Portugal.

  O período de adaptação, numa empresa grande, como português tinha que tentar vingar. E assim foi, em dez anos passei da posição de mecânico, como entrei na LTA, já era o segundo encarregado, acima de mim só o director-geral.

  Trabalhar no duro, tentar aprender o mais de Inglês possível e ir subindo nos quadros da empresa. Até que chegou ao ponto de “se consegui aqui, também consigo lá fora” e como já tinha experiência do mercado, arrisquei em 1986. Concorri – sem máquinas na altura – só baseado na minha reputação, experiência e na garantia que me tinha sido oferecida, por vários fornecedores, que se o trabalho me aparecesse me davam as máquinas.

  MG – Foi nessa altura que então fundou a Propact.

  JC – A Propact nasceu em 1986. Depois de dez anos a trabalhar para a LTA, de 77 a 86, Propact começou em Novembro 1986. Inicio de 1987 foi o princípio.

  MG – Portanto, só com a sua experiência e reputação, sem máquinas e sem nada …

  JC – Concorri com garantias, a um trabalho camarário. Foi-me concedido e depois de ter os documentos na mão, em como o trabalho era meu, fui aos fornecedores e não havia muito dinheiro, mas havia o suficiente para dar como entradas e garantias que pagava num período de um ano.

  Não foi necessário! Passados seis meses as máquinas estavam já todas pagas. E assim nasceu a Propact.

  MG – Explique-nos um pouco mais em detalhe a criação da empresa.

  JC – Primeiro criei a empresa, Propact Plant Hire, que ainda não tinha máquinas nem camiões, nem nada. Concorri e ganhei o concurso. Depois de ter o concurso e os documentos na mão para os próximos dois anos, fui aos fornecedores que me conheciam da empresa onde eu trabalhava, sabiam que nós eramos pessoas de palavra, disseram-me que tinha um ano para pagar as máquinas mediante um sinal. No fim de seis meses estava tudo pago. Abri as portas, depois tudo o que eu queria era só pedir!

  Comecei com quatro compressores, quatro rolos vibradores, dois camiões, uma carrinha para fazer os serviços e passado seis meses, como eu digo, estava tudo pago aos fornecedores.

  MG – E o trabalho foi o quê? Ainda se lembra?

  JC – O mesmo que ainda faço hoje em dia – fornecer maquinaria para a manutenção da cidade de Joanesburgo. Todas as obras, reparações de estradas, pontes, pontões, passeios, tudo o que era preciso na altura e hoje segue assim.

  Nós fornecíamos as máquinas, as assistências às máquinas e a Câmara Municipal fornece os trabalhadores. Foi assim que nasceu o Porpact.

  Depois concorremos às cidades de Germiston, Alberton, Pretória e ganhámos todos esses concursos.

  MG – A empresa a partir daí cresceu.

  JC – Cresceu e hoje ainda estamos no mesmo ramo.

  MG – A Propact sempre esteve aqui onde está ou tinha outras instalações?

  JC – A Propact mudou várias vezes de instalações, mas sempre esteve no Sul de Joanesburgo. Sempre na área de Booysens, na altura comprámos uma área de 4.000 metros quadrados aqui em Klipriver, estivemos lá 22 anos.

  O espaço não chegava e não era zona industrial, por conseguinte, foi necessário mudarmos para aqui onde estamos hoje para que não houvesse queixa dos vizi-nhos por causa de barulhos e outras perturbações. Comprámos esta propriedade.

  MG – Estão cá há quanto tempo?

  JC – Estamos aqui há nove anos. Presentemente temos dois mil metros quadrados de área a céu aberto e mil metros de área coberta. Onde estávamos era maior.

  MG – E as máquinas ficam todas aqui?

  JC – As máquinas felizmente andam todas fora. É um problema em Dezembro, quando a empresa fecha para férias, o espaço já é muito apertado para albergar todas as nossas máquinas. Então, há muita que não regressa, fica nas obras.

  MG – Há planos para expansão?

  JC – Sim, mas os filhos é que irão tomar conta desse aspecto.

  MG – Como empresário, como empreiteiro, como luso-sul-africano que é, como é que vê a indústria da construção no presente?

  JC – Quando começámos, sou do tempo em que o meu ramo de trabalho – aluguer de maquinaria – estava no inicio. Há trinta anos atrás, havia duas ou três empresas grandes, mas existia muito jovem a começar no ramo. Eu sou da fase em que muitos dos meus concorrentes expandiram de tal maneira que têm sucursais em todas as cidades da África do Sul.

  A Propact só está em Joanesburgo e Pretória. E a decisão de assim ser partiu que o trabalho conta, mas a Vida também é importante.

  Estive sempre ligado ao desporto e ligado à Comunidade e, sabia que se entrasse nessa jogada de ter sucursais em todas as cidades do país seria um escravo do trabalho. Como tal, nunca aceitei e continuo na minha empresa a trabalhar só cinco dias por semana. Trabalho duro e muito, mas o fim-de-semana é para descanso e para dedicar à família.

  Acontece que, ligado ao desporto, corri a “Two Oceans”, “Comrades”, fui duas vezes aos Campeonatos do Mundo de duatlo, corri pela África do Sul nos Estados Unidos e na Suiça.

  Por isso, além de ter o gosto de trabalhar, tenho muito prazer em gozar a vida. A família está bem, é o suficiente.

  MG – Em termos de procura, o negócio está a correr bem?

  JC – Tem sido a desenvolver com utilizações superiores a 80% a 90%, na maquinaria que temos.

  Também posso dizer que tudo o que temos é nosso, nada está financiado nem devemos nada. Os contratos que continuamos a ter são baseados no bom serviço que prestamos e na nossa reputação. Não nos tem faltado trabalho e estamos a ver garantias para os próximos cinco anos.

  Temos linhas de crédito abertas, usámos uma vez por engano, que é para não dizerem que não apoiamos a banca nacional, mas a maioria das nossas compras é feita com capital próprio.

  MG – Emprega quantas pessoas?

  JC – Varia bastante. Permanentemente assalariados, temos uma média de 40 empregados e temos tido ocasiões de 140, porque tivémos um trabalho na cidade onde exigia que cada camião tivesse dez homens.

  MG – A Propact está na provincia toda?

  JC – Sim, estamos no Gauteng todo.

  MG – É um negócio de família. Em que é que aponta o sucesso?

  JC – Tem sido. Tenho a esposa, o filho, as duas filhas, o genro, o meu irmão. Graças a Deus tem sido essa a base. A estrutura, quando comecei, eu era “pau para toda a obra”. Mais tarde, a esposa trabalhava numa empresa e vi a necessidade de ela pedir a exoneração para vir trabalhar connosco. Éramos na altura três, a minha esposa juntou-se a nós e ficámos quatro.

  Quando os miúdos cresceram e acabaram os seus cursos, viu-se a necessidade de inserilos na empresa. O meu irmão, ligado à parte técnica, também está connosco há mais de vinte anos. Tem sido a base, todos têm gostado do ramo. Confiar em quem? Confiar na família!

   MG – Planos para o futuro?

  JC – Os planos são daqui a dois ou três anos, em actividade constante e na proximidade de 2020, começar a ter o meu descanso. Queria ver se entre Moçambique, África do Sul e Portugal passava a minha reforma.

  MG – Uma reforma permanente?

  JC – Não! Sempre ligado à Propact, mas não permanente. Quando cá estiver, colaborar. Mas quando não estiver, os filhos tomam conta com a sua autonomia.

  MG – E planos de futuro para a Propact?

  JC –  Continuar a servir o mercado da melhor maneira, com dignidade e o suficiente para a família viver em condições e dar aos empregados uma boa remuneração também. Temos empregados que começaram comigo há 25 anos e ainda cá estão.

  Não só para a família, mas olhamos também pelos nossos empregados. Não me lembro de ter um movimento de funcionários constante, eles vêm gostam e ficam

  MG – Quantos portugueses é que emprega?

  JC – Ora, a família toda e mais três pessoas. Somos no total nove e muitos moçambicanos mas a maioria da mão-de-obra é sul-africana.

  MG – O portfolio é constituído pelos municípios e privados?

  JC – Sim, os municípios. 70% a nível governamental e 30% privados.

  MG – E nesses particulares/privados, há portugueses?

  JC – Sim, há várias empresas portuguesas.

  MG – Que tipo de máquinas é que tem?

  JC – Nós quando começámos, logo à nascente é preciso dinheiro para comprar a maquinaria. Começámos com os “saltitões”, os pratos vibradores, máquinas de compactação, compressores com martelos pneumáticos, passámos a camiões basculantes, agora estamos com as tlb’s, que são a combinação de retroescavadoras. Temos betoneiras em pequena quantidade, mas sempre conforme as necessidades compramos.

  MG – Há muita especulação, qual é a sua previsão para a África do Sul?

  JC – A África do Sul para mim quando cá cheguei, fiquei boquiaberto sabendo as dificuldades que enfrentávamos em Moçambique e chegar aqui encontrar um país de primeiro mundo no terceiro mundo!

  Tem continuado a ser, tem alicerces muito fortes, os minerais vão continuar a suportar este desgoverno que para aí há, por muito tempo.

  Se a casa for arrumada e bem arrumada, não temos igual no Mundo! Há poucos países com as possibilidades e potencialidades da África do Sul. Quem cá está e esteja bem, que continue e que vá em frente.

  MG – Portanto vê o futuro da Propact auspicioso?

  JC – É promissor.

  MG – Qual é o conselho que dá aos jovens, fruto da sua experiência de vida e de trabalho?

  JC – Para os jovens que entram no mercado de traba-lho, sei da dificuldade que enfrentam, na medida que as empresas, hoje, têm que olhar para a sua percen-tagem de BEE. Jovens licenciados irão ter dificuldade.

  A quem tem o benefício de ter pais ou familiares com empresas, aproveitem! Tomar conta das empresas, desejo-lhes boa sorte e digo que vão em frente. Porque este país tem muito por onde trabalhar, muito por onde vencer. Não virem as costas, tentem o melhor porque melhores dias virão!