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Academias em marcha
19-Jun-2017
Academias em marcha

Longe de pretendermos tornar literária a descrição da sua origem e os pormenores da confecção de um bom caldo verde ou a excelência de um prato de bacalhau com batatas, bem regado com azeite sem acidez, fica-nos o propósito de referir a grande tradição que esta ementa tem na gastronomia portuguesa para recordar que, à sua volta, nasceu há cerca de 50 anos uma tertúlia de amigos em Joanesburgo, que se transformou numa instituição comunitária de prestígio e que continua a valorizar os seus convívios através da aplicação das receitas financeiras das suas iniciativas em obras de solidariedade social.

  Com a designação de Academia do Bacalhau, a tertúlia ganhou raízes e multiplicou-se - hoje são quase sessenta os núcleos espalhados pela África do Sul, Suazilândia, Namíbia, Moçambique, Angola, Portugal, com a Madeira e Açores, e já depois no Brasil, Venezuela, Canadá, Inglaterra, Estados Unidos, França e Austrália. A próxima tertúlia a ser oficializada, em cerimónia a realizar em fins do mês de Julho, será a Academia do Bacalhau da Serra da Estrela, com sede na Guarda, a cidade mais alta de Portugal que por essa ocasião recebe a bandeira e o badalo como símbolos do espírito iniciado em 1968 no seio da comunidade portuguesa residente na cidade mais alta da África do Sul.

  A gala dos 49 anos que a Academia-Mãe, sob a presidência de José Contente, celebra no próximo sábado no Wanderers Club, em Joanesburgo, é o evento que marca o arranque de um vasto programa que assinalará as Bodas de Ouro de um movimento que se globalizou e assumiu uma acção social comparável à das Misericórdias portuguesas fundadas pela Rainha D. Leonor. Umas Bodas de Ouro que poderão ser encerradas só em Junho de 2019 com a eventual presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que já anunciou para esse ano a sua deslocação a África para comemorar com a diáspora portuguesa o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

  Será história a acrescentar a outros acontecimentos já históricos da narrativa tertuliana.

  Não é qualquer instituição que se orgulha de ser recebida num Senado. Tal aconteceu com a Academia-Mãe, então liderada por Silvério Silva, em Abril de 1999, em Brasília, com a particularidade dos senadores terem interrompido os seus debates, mas não a sessão parlamentar, para assinalar, com discursos que só os brasileiros sabem fazer, a presença dos visitantes na galeria reservada à assistência.

  Não é uma instituição qualquer que tem a honra de registar no seu historial cerimónias a ela dedicada a bordo do Navio-Escola da Armada Portuguesa. Tal aconteceu em Junho de 1993, há precisamente 24 anos, quando a Academia-Mãe, depois de iniciar a celebração das suas Bodas de Prata, com um programa de luxo no Palace Hotel, em Sun City, encerrou as comemorações dos seus 25 anos com um almoço de gala no Navio-Escola “Sagres”, então ancorado no porto da Cidade do Cabo, em viagem de regresso a Portugal depois de ter estado no Japão a comemorar os 450 anos da chegada dos portugueses àquele país do Extremo Oriente.

  Curiosamente, durante esse convívio realizado a bordo, por sugestão do então presidente da Academia de Joanesburgo e hoje seu presidente honorário, Adriano Leão, o comandante do navio abraçou a ideia de tornar a “Sagres” numa Academia do Bacalhau Itinerante.

  Esse espírito que lá ficou renasceu vinte anos depois e, a 13 de Junho de 2013, uma segunda cerimónia dedicada à Academia do Bacalhau aconteceu a bordo do Navio-Escola “Sagres”, desta vez no porto de Rouen, em França.

  Nesse dia, a “Sagres”, ancorada no porto da capital da Normandia para o festival náutico “L’Armada 2013”, recebeu a bordo cerca de 300 convidados num jantar que oficializou a formação da Academia do Bacalhau de Rouen. O presidente da nova Academia confessou ter sido uma honra oficializar a tertúlia a bordo da “Sagres”. Era o mesmo que estar em Portugal.

  Esta instituição chama-se Academia do Bacalhau e nasceu em Joanesburgo.

  Sem propósitos políticos, religiosos ou comerciais - pelo que nunca constituirão um grupo de pressão -, as Academias do Bacalhau assumem-se como instituições marcadas pela vertente lusíada da amizade, da entreajuda e da solidariedade.

  Alheias a estatutos ou a registos burocráticos oficiais que as vinculem institucionalmente como associações ou clubes, as Academias têm-se regido, ao longo destas cinco décadas de existência e sempre que a lei nos países de acolhimento o permite, por normas que se tornaram consuetudinárias, girando o seu texto em redor da fidelidade a valores tradicionais portugueses. A sua força e a sua vitalidade residem apenas no espírito que anima os princípios do convívio entre amigos e que levam os seus membros a reunirem-se regularmente com o bem-fazer na agenda.

  As Academias são o espelho de um fenómeno sociológico e cultural da emigração - bem interpretado por um dos seus fundadores e actual presidente honorário, Durval Marques -, emergente pela distância a que as comunidades se encontram das suas raízes geográficas e explicado pelo desejo de fomentar, encorajar e desenvolver relações de amizade, cooperação e confraternização entre gentes de expressão lusíada e também com outros núcleos dos países de acolhimento.

  Este relacionamento no seio das Academias é feito independentemente da posição social e do grau de cultura de cada um dos seus membros. Por isso, a regra da não referência, durante os convívios, a graus académicos e profissionais ou a títulos honoríficos, vigora em pleno e as infracções, mesmo que por distracção, são passíveis de uma multa simbólica. Daí que os fundadores justifiquem a adopção convencional da designação de "compadres" para os membros da tertúlia como aquela que corresponde à do melhor amigo que se escolhe para padrinho de um filho.

  Foi na interpretação prática destes princípios que, por iniciativa de membros da Academia do Bacalhau de Joanesburgo, se fundou em 1975 a Sociedade Portuguesa de Beneficência para acudir inicialmente aos refugiados vindos de Angola e de Moçam-bique e, mais tarde, em 1986, o Luso South African Benefit Trust Fund, fundo financeiro constituído pelos compadres e cujos juros têm revertido a favor da SPB.

  A vitalidade dos princípios que enformaram há quase meio século o aparecimento da primeira tertúlia em Joanesburgo levou a que mais Academias surgissem noutras latitudes. No próximo Congresso Mundial, marcado para Outubro na capital da ilha açoriana da Terceira, os presidentes e delegados vão dizer do crescimento das suas Academias, dos laços estabelecidos e dos actos de solidariedade levados a cabo ao longo de mais um ano de actividades. Da aproximação conseguida pela amizade e da tarefa de levar algum conforto aos infelizes. É disso que os membros das Academias mais se orgulham.

R. VARELA AFONSO

 

 

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